08 DE MARÇO: O GRITO DE ELAINE(*)

Dentre as poucas certezas deste Brasil contemporâneo, uma é indiscutível: a violência contra as mulheres. Esta é uma das marcas cravadas no DNA deste país, que assistiu, ao longo da sua história, a morte de tantas mulheres índias e negras, que, sequer, podemos imaginar, pois não eram registradas. Esta violência contra a mulher possui os mais variados palcos, dos mais públicos aos mais privados. Pode ocorrer numa festa por um decote considerado exagerado ou, ainda, no aconchego do próprio lar. Pode ser cometida por uma pessoa totalmente desconhecida ou, até mesmo, pela pessoa que se ama.

Uma coisa é certa, não vivemos uma sensação de insegurança, mas, sim, uma realidade que é de total insegurança para todos e, sobretudo, para as mulheres, que são alvos prediletos da violência. Até mesmo as medidas de proteção aplicadas pela justiça são incapazes de dissipar a marcha da violência contra a mulher. As ordens judiciais não conseguem conter a fúria dos algozes da mulher.

Elaine foi mais uma das vítimas da violência cometida por aqueles que exalavam carinhos e proteção. Um jovem conseguiu entrar em contato com Elaine através dos novos meios de comunicação social. Após alguns meses de trocas de mensagens, este jovem consegue ganhar a confiança de Elaine. Assim decidem marcar um encontro para elevar o nível da relação que deixa de ser virtual para ser real. O jovem príncipe se torna o agressor decidido em tirar a vida da mulher que, até então, galanteava. E os elogios se transformam em golpes e socos violentos que não desfiguram, apenas, o rosto de uma bela mulher, mas frustram suas expectativas, destroem suas esperanças e a confiança nas parcerias humanas.

Se houvesse maiores parcerias entre as pessoas, independente das orientações sexuais, religiosas, culturais e quaisquer outras, Elaine não teria transcorrido horas e horas sob os golpes de um jovem estudante de direito que macula uma ciência sempre conhecida pela defesa da vida. É preciso pensar que estes gritos ouvidos exigem de nós um compromisso. É um outro ser humano em busca de socorro. É preciso meter a colher, intervir e usar os meios para denunciar. Elaine não morreu, mas as vidas de tantas mulheres são diariamente ceifadas neste imenso Brasil da violência.

O fim de relacionamentos é sempre mais motivo de grandes preocupações para os familiares, que pensam como farão para proteger filhas e irmãs contra a vingança dos companheiros inconformados com as decisões tomadas pelas mulheres. Além de terem suas rotinas transtornadas, quando vão ao local de estudo, de trabalho ou de lazer, estas mulheres vivem aterrorizadas sob o fardo do medo de algo, que, a qualquer momento, pode acontecer, pois sabem que, muito facilmente, elas podem morrer.

O grito de Elaine precisa ser ouvido em defesa de tantas Elaines, de todas as mulheres que, no Brasil e no mundo, precisam de proteção. Ainda não há o que comemorar, pois as redes de proteção em torno da mulher são frágeis. Mas, com o empenho de todos, da educação, do direito, dos meios de comunicação social, é possível construir um Brasil, no qual a mulher seja respeitada na sua dignidade, em todas as suas escolhas, e tenha as condições necessárias para o seu desenvolvimento integral.

(*) Artigo do Professor João Cláudio da Conceição, doutor em Filosofia, professor do curso de Direito da FANESE.


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